Há alguns anos atrás, o único sitio nos Estados Unidos da América que me atraia o suficiente para sonhar como uma visita era a cidade de New Orleans.Sem dúvida influenciada pelas ricas descrições dos romances de Anne Rice (nos volumes das Crónicas dos Vampiros e na saga da Família Mayfair) sempre vi esta cidade como se ela estivesse parada no século XIX e, de facto, a maioria dos autores que escrevem sobre ela dão-lhe sempre um tom dessa época, mesmo quando a acção se passa em pleno século XXI.
Do meu ponto de vista, sinto-a como sendo a cidade mais europeia de todos os Estados Unidos, servindo de ponte entre o Velho e o Novo Mundo; talvez seja quase sempre por aí que se introduzem Vampiros na América: um mito do Velho Mundo a entrar pelo ponto que lhe é mais próximo.
Ao mesmo tempo, New Orleans é uma cidade associada à escravatura e às tradições que os escravos levaram consigo, enchendo-a de recantos sussurrantes, feitiçaria e vodoum, ao mesmo tempo que a usaram para dar à luz as melodias inquietantes do jazz e dos blues.
Cercada por pântanos tortuosos, recheados de aligatores onde facilmente imaginamos crimes hediondos que terminam em corpos ensanguentados, lançados no lodaçal, New Orleans parece ter sido desenhada cuidadosamente como cenário de histórias de horror.
Os primeiros vampiros "americanos" com que me cruzei foram os de Anne Rice (até aí só tinha tido contacto com vampiros ingleses, franceses e afins, nascidos do grande boom da literatura gótica do século XIX) , e como se sabe - nem que seja do filme! - a cidade de New Orleans tem um papel fundamental na história.

De tal forma que quando Sting escreveu uma música inspirada no romance "Interview With a Vampire" lhe deu o nome de uma das mais emblemáticas ruas da cidade: Bourbon Street (se ainda não tinha ideia, leiam atentamente a letra de "Moon Over Bourbon Street" e vão ver nela uma mistura de Louis e Lestat). Este primeiro contacto deixou-me irremediavelmente apaixonada pela New Orleans de Rice.
Depois voltei a encontrar-me com uma New Orleans vampirizada em "Lost Souls" de Poppy Z. Brite. Este trabalho de Brite, na minha opinião, ajudou a solidificar a relação entre os vampiros e a cidade, adicionando-lhe ainda o aroma esverdeado do Chartreuse.
(Nota: não há por aí nenhum editor simpático que queira aproveitar a onda da vampirada e publicar o fantástico "Lost Souls" por cá? "Vampiros sim, mas com Qualidade" é o meu novo lema!).
Até mesmo na série de vampiros de Shannon Drake, em "When Darkness Falls", um dos volumes mais conhecidos, encontramos as personagens a vaguear pelas ruas (e cemitérios, claro) de New Orleans.
Recordo ainda, apesar de não ter vampiros, "Falling Angel" de William Hjortsberg - um livro a não perder para qualquer amante do fantástico, do oculto e do horror - também passado em New Orleans.
Apesar de não parecer, este post não é sobre New Orleans, mas sim sobre "Fevre Dream" de George R. R. Martin, a ser publicado pela Editora Saída de Emergência em 2010. Muito boas noticias para quem quer livros (e vampiros) de qualidade e não vai ler o original.

Vou tentar não desvendar nenhum detalhe sumarento que estrague a leitura a quem ainda não o leu, pelo que ficam já avisados...
Estamos em 1857, numa velha pousada algures nas margens do Mississipi.
Abner Marsh, um homem pesado e de bengala, entra na sala de refeições da pousada, uma divisão sombria e quase vazia, indo ao encontro de Josh York, sentado sozinho a uma mesa e jantando calmamente fora de horas.
A conversa é rápida e os dois homens ficam sócios de um negócio de barcos de transporte. Marsh tem o conhecimento do rio e dos barcos e York o desejo de ser capitão de um grandioso barco a vapor que sobe e desce o Mississipi e, obviamente, tem também o dinheiro para o mandar construir.
Assim nasce Fevre Dream, o mais rápido e belo barco a navegar no Mississipi, numa época em que a proximidade da Guerra Civil ('61-'67) e o comboio começavam a fazer declinar o negócio.
A cena nocturna em que os dois sócios se deslocam ao estaleiro e visitam um Fevre Dream quase pronto, maravilhando-se com o prateado das pinturas, a enormidade e quantidade de espelhos, os vários decks e a silhueta do navio de encontro à Lua, citando Byron e sonhando, é excelente e considero que a prosa de Martin, neste tipo de cenas, supera largamente a sua prosa nos volumes de A Song Of Ice and Fire.
Depois o barco fica pronto e juntamo-nos às centenas de passageiros que seguem a bordo na viagem inaugural, rumo a New Orleans...
Entretanto, algures numa plantação entre os pântanos e a cidade de New Orleans, um bando de vampiros, liderado por Damon Julina, victimiza escravos e homens livres usando um esbirro mortal para os atrair às ruínas e para se livrar dos corpos.
Somos então apresentados a uma das personagens que considerei mais interessantes da obra: Sour Billy Tipton, o esbirro humano de Damon Julian.
Sour Billy é uma espécie de Renfield que espera eternamente ser convertido ao vampirismo e, efectivamente, tem um percurso delicioso durante todo o livro. É uma personagem com atitudes e comportamentos detestáveis, mas ao mesmo tempo, não lhe consegui resistir, como é habitual em Martin: mesmo as suas piores personagens conseguem prender-nos a atenção.
A bordo de Fevre Dream a viagem arrasta-se, por culpa das exigências e extravagancias de York, e Marsh começa a achar o comportamento dele demasiado estranho; diversos acontecimentos precipitam a verdade: York é vampiro e procura outros vampiros com o objectivo de lhes dar a cura para a febre que os assola uma vez por mês e os faz matar.
É então que ouvimos todo o folclore vampírico do imaginário criado por Martin, relatado pelo próprio York.
Apesar de ter alguns pontos em comum com as origens descritas em Vampire: The Masquerade recordo que este livro é de 1982 e que a primeira edição do rule book de Vampire aparece publicado pela White Wolf em 1991.
Na minha modesta opinião a ideia de Martin foi possivelmente repescada pelos criadores de Vampire.
Aliás, estamos perante um gap de quase uma década!
Fica um desafio interessante para os entendidos em vampiros: conhecem outros livros, anteriores a '91, que apresentem este tipo de origem, baseada na personagem de Caim?
Depois deste momento o livro arrasta-se desnecessariamente por várias dezenas de páginas: num "agora mando eu", "agora mandas tu" e algumas cenas de acção (menos boas, quando comparadas com as cenas de acção de A Song Of Ice and Fire).
Nasce a "lenda" de um barco fantasma que navega às escuras pelo Mississipi repleto de vampiros sangrentos, atacando qualquer barco na sua proximidade e bebendo o sangue de quem nele viaja, mas nunca ninguém o viu.
Não vos vou contar o final, mas, mais uma vez, os meus 10 pontos vão para Sour Billy Tipton. :) Leiam e perceberão porquê...
Com satisfação fui navegando pelo Mississipi, a bordo de Fevre Dream (o livro e não o barco) manobrado por George Martin.
Como já referi é inevitável fazer a comparação entre a prosa de Martin em Fevre Dream e nos volumes de A Song Of Ice and Fire (que, para mim, funcionam como um todo) e relativamente a isso posso dizer que a considero melhor aqui que em ASOIF, especialmente no discurso indirecto, criando descrições detalhadas e atmosferas realistas que, rapidamente, nos envolvem.
O livro tem uma série de pormenores brilhantes: como as citações de Byron, a construção de uma relação entre Marsh e a poesia, ao longo de todo o romance, e os estudos científicos e alquímicos de Josh York, dos quais falarei adiante.
Considero, no entanto, que há uma série de coisas que podia ter sido feita de outra forma, nomeadamente o relato da história e folclore dos vampiros, que acabou por se transformar numa exposição apressada; uma catadupa de verbos que nos empurram pelos séculos, contando pouco e demasiado rápido, deixando o leitor com a sensação de que está a ler a versão resumida, nos Apontamentos Europa-América.
Depois de pensar um pouco sobre isto, lembrei-me de que a publicação de "Interview With A Vampire" ocorreu em 1976 e que talvez Martin procurasse fazer qualquer coisa diferente; não querendo alongar o romance num momento que poderia "colar" o seu trabalho ao de Rice (mas não lhe podendo fugir completamente) solucionou o problema com uma descrição apressada. Do meu ponto de vista não funciona. Foi uma má escolha.
A abordagem cientifica seguida por York, que justifica com diferenças fisiológicas e químicas as divergências de comportamento entre vampiros e humanos, é das coisas mais interessantes que li no que respeita a vampiros.
O vampirismo é abordado - ao longo dos tempos e por vários autores - de formas muito diferentes; desde a clássica doença transmitida na saliva ou sangue do vampiro, a uma deficiência inata. Para uns estão vivos, para outros estão mortos, outros ainda acham que são não-mortos ou mortos-vivos.
Hoje em dia é muito difícil inovar (mas não impossível, como provaram Steve Niles e Ben Templesmith em "30 Days of Night" ou Lindqvist em "Let The Right One In"), mas em '82 já o era e Martin fê-lo, transformando os seus vampiros numa nova espécie, acima dos humanos na cadeia alimentar, com uma fisiologia interna diferente e com um problema de degeneração cíclica do sangue que os obriga a atacar indíviduos para repor o equilíbrio químico interno.
O vampiro de Martin tem um solução para não atacar ninguém, e que não passa por atacar animais irracionais, nem consumir plasma "de pacote" ou ser muito bem comportado. York descobriu uma fórmula que lhe permite criar um elixir que substitui o efeito do consumo de sangue (mais elaborado que a solução de Charlaine Harris, não?).
O vampiro de Martin pode sair à rua durante o dia, mas fica queimado pelo sol. Não se transforma em cinzas (nem brilha como um diamante, como se lê na série Twilight - !? nunca vou perceber isso...), mas queima como se fosse atingido pelo fogo.
Do que me lembro, nenhuma destas ideias era comum em '82.
Por outro lado, os momentos de acção estão mais bem conseguidos em ASOIF. Mesmo o desenrolar da trama parece perder-se um pouco a determinada altura e os avanços e recuos da narrativa deixam-nos sempre, apressadamente, no mesmo local.
Acho que podia ter-se cortado algumas cenas sem perder o sentido e tornar o enredo mais fluido.
O final tem uma cena relativamente corny, mas nada que não possa ser ultrapassado em prol do resto.
Martin consegue apresentar um bom livro de vampiros. Não deixem de ler.




