Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Fevre Dream... de sonho?

Há alguns anos atrás, o único sitio nos Estados Unidos da América que me atraia o suficiente para sonhar como uma visita era a cidade de New Orleans.

Sem dúvida influenciada pelas ricas descrições dos romances de Anne Rice (nos volumes das Crónicas dos Vampiros e na saga da Família Mayfair) sempre vi esta cidade como se ela estivesse parada no século XIX e, de facto, a maioria dos autores que escrevem sobre ela dão-lhe sempre um tom dessa época, mesmo quando a acção se passa em pleno século XXI.

Do meu ponto de vista, sinto-a como sendo a cidade mais europeia de todos os Estados Unidos, servindo de ponte entre o Velho e o Novo Mundo; talvez seja quase sempre por aí que se introduzem Vampiros na América: um mito do Velho Mundo a entrar pelo ponto que lhe é mais próximo.
Ao mesmo tempo, New Orleans é uma cidade associada à escravatura e às tradições que os escravos levaram consigo, enchendo-a de recantos sussurrantes, feitiçaria e vodoum, ao mesmo tempo que a usaram para dar à luz as melodias inquietantes do jazz e dos blues.

Cercada por pântanos tortuosos, recheados de aligatores onde facilmente imaginamos crimes hediondos que terminam em corpos ensanguentados, lançados no lodaçal, New Orleans parece ter sido desenhada cuidadosamente como cenário de histórias de horror.

Os primeiros vampiros "americanos" com que me cruzei foram os de Anne Rice (até aí só tinha tido contacto com vampiros ingleses, franceses e afins, nascidos do grande boom da literatura gótica do século XIX) , e como se sabe - nem que seja do filme! - a cidade de New Orleans tem um papel fundamental na história.
De tal forma que quando Sting escreveu uma música inspirada no romance "Interview With a Vampire" lhe deu o nome de uma das mais emblemáticas ruas da cidade: Bourbon Street (se ainda não tinha ideia, leiam atentamente a letra de "Moon Over Bourbon Street" e vão ver nela uma mistura de Louis e Lestat). Este primeiro contacto deixou-me irremediavelmente apaixonada pela New Orleans de Rice.

Depois voltei a encontrar-me com uma New Orleans vampirizada em "Lost Souls" de Poppy Z. Brite. Este trabalho de Brite, na minha opinião, ajudou a solidificar a relação entre os vampiros e a cidade, adicionando-lhe ainda o aroma esverdeado do Chartreuse.

(Nota: não há por aí nenhum editor simpático que queira aproveitar a onda da vampirada e publicar o fantástico "Lost Souls" por cá? "Vampiros sim, mas com Qualidade" é o meu novo lema!).

Até mesmo na série de vampiros de Shannon Drake, em "When Darkness Falls", um dos volumes mais conhecidos, encontramos as personagens a vaguear pelas ruas (e cemitérios, claro) de New Orleans.

Recordo ainda, apesar de não ter vampiros, "Falling Angel" de William Hjortsberg - um livro a não perder para qualquer amante do fantástico, do oculto e do horror - também passado em New Orleans.

Apesar de não parecer, este post não é sobre New Orleans, mas sim sobre "Fevre Dream" de George R. R. Martin, a ser publicado pela Editora Saída de Emergência em 2010. Muito boas noticias para quem quer livros (e vampiros) de qualidade e não vai ler o original.


Vou tentar não desvendar nenhum detalhe sumarento que estrague a leitura a quem ainda não o leu, pelo que ficam já avisados...

Estamos em 1857, numa velha pousada algures nas margens do Mississipi.

Abner Marsh, um homem pesado e de bengala, entra na sala de refeições da pousada, uma divisão sombria e quase vazia, indo ao encontro de Josh York, sentado sozinho a uma mesa e jantando calmamente fora de horas.
A conversa é rápida e os dois homens ficam sócios de um negócio de barcos de transporte. Marsh tem o conhecimento do rio e dos barcos e York o desejo de ser capitão de um grandioso barco a vapor que sobe e desce o Mississipi e, obviamente, tem também o dinheiro para o mandar construir.

Assim nasce Fevre Dream, o mais rápido e belo barco a navegar no Mississipi, numa época em que a proximidade da Guerra Civil ('61-'67) e o comboio começavam a fazer declinar o negócio.
A cena nocturna em que os dois sócios se deslocam ao estaleiro e visitam um Fevre Dream quase pronto, maravilhando-se com o prateado das pinturas, a enormidade e quantidade de espelhos, os vários decks e a silhueta do navio de encontro à Lua, citando Byron e sonhando, é excelente e considero que a prosa de Martin, neste tipo de cenas, supera largamente a sua prosa nos volumes de A Song Of Ice and Fire.
Depois o barco fica pronto e juntamo-nos às centenas de passageiros que seguem a bordo na viagem inaugural, rumo a New Orleans...

Entretanto, algures numa plantação entre os pântanos e a cidade de New Orleans, um bando de vampiros, liderado por Damon Julina, victimiza escravos e homens livres usando um esbirro mortal para os atrair às ruínas e para se livrar dos corpos.
Somos então apresentados a uma das personagens que considerei mais interessantes da obra: Sour Billy Tipton, o esbirro humano de Damon Julian.

Sour Billy é uma espécie de Renfield que espera eternamente ser convertido ao vampirismo e, efectivamente, tem um percurso delicioso durante todo o livro. É uma personagem com atitudes e comportamentos detestáveis, mas ao mesmo tempo, não lhe consegui resistir, como é habitual em Martin: mesmo as suas piores personagens conseguem prender-nos a atenção.

A bordo de Fevre Dream a viagem arrasta-se, por culpa das exigências e extravagancias de York, e Marsh começa a achar o comportamento dele demasiado estranho; diversos acontecimentos precipitam a verdade: York é vampiro e procura outros vampiros com o objectivo de lhes dar a cura para a febre que os assola uma vez por mês e os faz matar.
É então que ouvimos todo o folclore vampírico do imaginário criado por Martin, relatado pelo próprio York.

Apesar de ter alguns pontos em comum com as origens descritas em Vampire: The Masquerade recordo que este livro é de 1982 e que a primeira edição do rule book de Vampire aparece publicado pela White Wolf em 1991.
Na minha modesta opinião a ideia de Martin foi possivelmente repescada pelos criadores de Vampire.
Aliás, estamos perante um gap de quase uma década!
Fica um desafio interessante para os entendidos em vampiros: conhecem outros livros, anteriores a '91, que apresentem este tipo de origem, baseada na personagem de Caim?
Depois York conta a sua história e a historia caminha para o inevitável: Damon Julian espera por Josh York e as duas personagens lutam pelo título de Blood Master.

Depois deste momento o livro arrasta-se desnecessariamente por várias dezenas de páginas: num "agora mando eu", "agora mandas tu" e algumas cenas de acção (menos boas, quando comparadas com as cenas de acção de A Song Of Ice and Fire).

Nasce a "lenda" de um barco fantasma que navega às escuras pelo Mississipi repleto de vampiros sangrentos, atacando qualquer barco na sua proximidade e bebendo o sangue de quem nele viaja, mas nunca ninguém o viu.

Não vos vou contar o final, mas, mais uma vez, os meus 10 pontos vão para Sour Billy Tipton. :) Leiam e perceberão porquê...

Com satisfação fui navegando pelo Mississipi, a bordo de Fevre Dream (o livro e não o barco) manobrado por George Martin.
Como já referi é inevitável fazer a comparação entre a prosa de Martin em Fevre Dream e nos volumes de A Song Of Ice and Fire (que, para mim, funcionam como um todo) e relativamente a isso posso dizer que a considero melhor aqui que em ASOIF, especialmente no discurso indirecto, criando descrições detalhadas e atmosferas realistas que, rapidamente, nos envolvem.

O livro tem uma série de pormenores brilhantes: como as citações de Byron, a construção de uma relação entre Marsh e a poesia, ao longo de todo o romance, e os estudos científicos e alquímicos de Josh York, dos quais falarei adiante.

Considero, no entanto, que há uma série de coisas que podia ter sido feita de outra forma, nomeadamente o relato da história e folclore dos vampiros, que acabou por se transformar numa exposição apressada; uma catadupa de verbos que nos empurram pelos séculos, contando pouco e demasiado rápido, deixando o leitor com a sensação de que está a ler a versão resumida, nos Apontamentos Europa-América.

Depois de pensar um pouco sobre isto, lembrei-me de que a publicação de "Interview With A Vampire" ocorreu em 1976 e que talvez Martin procurasse fazer qualquer coisa diferente; não querendo alongar o romance num momento que poderia "colar" o seu trabalho ao de Rice (mas não lhe podendo fugir completamente) solucionou o problema com uma descrição apressada. Do meu ponto de vista não funciona. Foi uma má escolha.

A abordagem cientifica seguida por York, que justifica com diferenças fisiológicas e químicas as divergências de comportamento entre vampiros e humanos, é das coisas mais interessantes que li no que respeita a vampiros.
O vampirismo é abordado - ao longo dos tempos e por vários autores - de formas muito diferentes; desde a clássica doença transmitida na saliva ou sangue do vampiro, a uma deficiência inata. Para uns estão vivos, para outros estão mortos, outros ainda acham que são não-mortos ou mortos-vivos.
Hoje em dia é muito difícil inovar (mas não impossível, como provaram Steve Niles e Ben Templesmith em "30 Days of Night" ou Lindqvist em "Let The Right One In"), mas em '82 já o era e Martin fê-lo, transformando os seus vampiros numa nova espécie, acima dos humanos na cadeia alimentar, com uma fisiologia interna diferente e com um problema de degeneração cíclica do sangue que os obriga a atacar indíviduos para repor o equilíbrio químico interno.

O vampiro de Martin tem um solução para não atacar ninguém, e que não passa por atacar animais irracionais, nem consumir plasma "de pacote" ou ser muito bem comportado. York descobriu uma fórmula que lhe permite criar um elixir que substitui o efeito do consumo de sangue (mais elaborado que a solução de Charlaine Harris, não?).

O vampiro de Martin pode sair à rua durante o dia, mas fica queimado pelo sol. Não se transforma em cinzas (nem brilha como um diamante, como se lê na série Twilight - !? nunca vou perceber isso...), mas queima como se fosse atingido pelo fogo.

Do que me lembro, nenhuma destas ideias era comum em '82.

Por outro lado, os momentos de acção estão mais bem conseguidos em ASOIF. Mesmo o desenrolar da trama parece perder-se um pouco a determinada altura e os avanços e recuos da narrativa deixam-nos sempre, apressadamente, no mesmo local.
Acho que podia ter-se cortado algumas cenas sem perder o sentido e tornar o enredo mais fluido.

O final tem uma cena relativamente corny, mas nada que não possa ser ultrapassado em prol do resto.

Martin consegue apresentar um bom livro de vampiros. Não deixem de ler.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

As Pupilas do Senhor Reitor e os Extraterrestres

E este título serve de mote para a minha reclamação oficial, digamos assim.

Depois de ter sido confrontada com Pride and Prejudice and Zombies - que inocentemente comprei, esperando encontrar algo de original - percebi que a moda pegou, gerando Sense and Sensibility and Sea Monsters.

Entretanto, já ouvi rumores de novo títulos, como Mansfield Park and Mummies e Vampires at Northanger Abbey. Não consegui validar nenhum destes dois rumores em fontes oficiais, mas não me parece que sejam verdadeiros, uma vez que estes títulos são dos mais desconhecidos da autora e não dariam muito retorno.

No entanto, outros livros de outros autores, já no domínio público, estão a ser apropriados por esta nova linha de autores de fanfiction que, para além de usarem o universo e as personagens de terceiros (como os autores de fanfiction online), usam ainda as ideias e o texto original, limitando-se a colocar umas quantas frases avulso, que nem sequer fazem muito sentido no contexto da história, com o propósito de se colarem à obra e ao autor mais famoso e receberem uns belos royalties.

Acho desleal e desrespeitoso pelo trabalho dos verdadeiros sautores. Talvez seja necessário ajustar internacionalmente as noções de propriedade intelectual, de direitos de autor e de domínio público.

E quem acha que estou a exagerar, imagine o que seria pegar em Eça de Queiróz ou no nosso Júlio Dinis - a Jane Austen portuguesa - e meter umas buchas no meio dos livros deles sobre... sei lá, extraterrestes!

Só uma frasezinha ou outra para não ter muito trabalho.
Punha uma nave a aterrar na eira do José das Dornas a meio da desfolhada e o Danielzinho a sair de casa da Clarinha a meio da noite e, em vez de dar de caras com o irmão, dava de caras com um extraterreste e tínhamos assim "As Pupilas do Senhor Reitor e os Extraterrestres".
Ok, o esforço imaginativo da minha parte já está completo! Agora basta arranjar uma versão do texto online - sim, porque ter de reescrever (copiar?) o livro inteiro dá imenso trabalho e consome tempo - fazer copy-paste para dentro de um documento Word e escrever as minhas 3 ou 4 frases sobre extraterrestres e as suas naves coloridas e com luzes.
Fica sem sentido nenhum, mas não faz mal.
Digo que é uma paródia; e quando as pessoas virem na capa o título do livro - original - e o nome do Júlio Dinis ao lado do meu, compram e pronto!
Eu recebo os royalties pela venda do livro (10% dos 15€ do PVP dá 1,5€ por cada livro vendido) e fica-me bem pago o trabalho!

Parece-me um bocado vigarice, mas o que é preciso é enfatizar a ideia da paródia. Como hoje em dia ninguém lê nada com atenção nem vão dar conta que eu me esforcei tão pouco...

É um espírito parecido com estar-se em Lisboa a vender a Torre de Belém ou o Mosteiro dos Jerónimos aos turistas!

Domingo, Novembro 01, 2009

Mr. Darcy, Vampyre... mas pouco!

Começo por avisar todos os leitores que este post contém SPOILERS.
Quem estiver a pensar ler o livro e não quiser saber o final, NÃO LEIA este post...

"Mr. Darcy, Vampyre" de Amanda Grange vem no espírito dos inúmeros volumes inspirados por "Pride and Prejudice" de Jane Austen, alguns deles escritos pela própria.

A verdade é que as aventuras e desventuras de Lizzie e Darcy alimentam a imaginação de milhares de pessoas - mulheres, na sua maioria ;) - há décadas.

Pride and Prejudice tornou-se num verdadeiro filão de fanfiction profissional e podemos encontrar todo o tipo de histórias, recordo, a título de exemplo:
  • Mr. Darcy Takes a Wife de Linda Berdoll
  • Mr. and Mrs. Fitzwilliam Darcy de Sharon Lathan
  • Mr. Darcy's Diary um Amanda Grange e outro de Maya Slater
  • Mr. Darcy's Dream de Elizabeth Aston
  • Loving Mr. Darcy de Sharon Lathan
  • Mr. Darcy Presents is Bride de Helen Halstead
  • Pride and Prejudice and Zombies de Jane Austen e Seth Grahame-Smith
  • The Intrigue at Highbury (Mr. and Mrs. Darcy Misteries) de Carrie Bebris
  • Mr. Darcy's Daugthers de Rebecca Ann Collins
  • The Other Mr. Darcy de Monica Fairview
  • Pemberley Shades de Dorothy Bonavia-Hunt e D. A. Bonavia-Hunt
  • Impulse and Initiative de Abigail Reynolds
  • Excessively Diverted de Juliette Shapiro
  • The Darcy Connection de Elizabeth Aston
  • ...

Podia ficar aqui o resto da noite a escrever livros e autores porque a quantidade de sequelas, adaptações, remakes e palhaçadas é verdadeiramente extensa!

Amanda Grange apareceu entre as Janeites (fãs de Jane Austen) com uma colecção de Diários das personagens masculinas de vários livros de Austen como: "Mr. Knightley's Diary" (Emma), "Mr. Darcy's Diary" (Pride and Prejudice), "Captain Wentworth's Diary" (Persuasion), "Edmund Bertram's Diary" (Mansfield Park), "Colonel Brandon's Diary" (Sense and Sensability). Tem ainda alguns livros originais ("The Titanic Affair" por exemplo), mas a sua mais recente obra aproveita a actual moda dos vampiros e a constante paixão despertada por "Pride and Prejudice", para transformar Darcy em vampiro e começar a contar a história no momento do casamento entre Darcy e Lizzie.

O facto da história ser efectivamente original é uma mais valia quando comparada com os recentes e muito preguiçosos "Pride and Prejudice and Zombies" ou "Sense and Sensability and Sea Monsters" (este último não li, porém, pelo que vi, segue as linhas do P&P&Z), mas a verdade é que isso não é suficiente para fazer de um livro um bom livro.

Sendo uma fã de P&P e de Vampiros, parece quase impossível este livro não me ter agradado, mas a verdade é essa.
Um Darcy de personalidade alterada, que passa o tempo todo escondendo-se de Lizzie e resistindo as suas timidas tentativas de sedução não era bem a personagem vampirica que tinha em mente.
Grange fez mentalmente uma lista de locais a visitar, encheu uns quantos palacetes, castelos e casarões com vampiros meio distraídos e muito pouco discretos (incluindo um tio Conde Polidori que vive num velho castelo nos Alpes; talvez os Cárpatos fossem um pouco fora de mão para serem visitados numa lua-de-mel) e faz Lizzie andar a passear rapidamente, num casamento por consumar, por uma Europa onde até aparece a Lady Catherine e a sua enferma Anne, quase a picar o ponto para garantir que tinha um pouco mais de 200 páginas.

Resumindo: Darcy é vampiro, tem medo de consumar o casamento porque alguém lhe disse no dia da cerimónia que, se calhar, sexo é capaz de ser um método, alternativo à dentada, para transformar alguém em vampiro e por isso, decide viajar pelos seus amigos vampiros da Europa para validar essa ideia, uma vez que não quer ver Lizzie transformada em vampira (sabe-se lá porquê! se gosta tanto dela, vivam os dois para sempre).
Entretanto, são perseguidos não se sabe bem porquê ou por quem, as dicas do vampirismo de Darcy são mais que muitas, mas Lizzie não dá conta de nada (incluindo as transformações nocturnas em morcego), e quando finalmente surge a revelação, vem associada a uma possibilidade de converter a "maldição" e de voltar a ser mortal.
Em vez de oferecer a Lizzie a vida eterna, Darcy decide descer a umas grutas por baixo de uns templos que ficam mesmo ali ao lado de uma das cabanas de caça que este possui quase a cada esquina e, num estranho e muito mal "amanhado" ritual com muito pouco rito, deixa de ser vampiro e passa a viver com Lizzie como mortal.
As limitações das famílias de vampiros chegam quase a ser hilariantes, como o caso de Darcy que fica transparente (!?) durante o nascer e o pôr do sol (isto levanta alguns problemas no que toca à mais recente adaptação do P&P no cinema, para quem se lembra da cena final!).
Já para não dizer que, de repente, Lizzie passou a ter uma beleza avassaladora para toda a gente quando antes era só engraçada. O que diriam eles de Jane, referida por TODOS em P&P como sendo a mais bela das irmãs...

É impressão minha ou estes finais estão cada vez piores!?...

Enfim, o livro é fraquinho, mesmo para uma continuaçãozeca do P&P.

A única coisa positiva é, pelo facto da autora conhecer bem a obra original, ter algumas piscadelas de olho ao trabalho de Austen, mencionando conversas ou acontecimentos do livro e, normalmente, a propósito.

Não sei se vai ser publicado por cá, mas entretanto sairá outro com a mesma premissa - Mr. Darcy é ou será transformado em vampiro - em Dezembro: "Vampire Darcy's Hunger: A Pride and Prejudice Adaptation". Este adaptation faz com que este esteja talvez demasiado próximo do P&P&Z, o que me preocupa um pouco no que toca à originalidade...

Para quem, ainda assim, estiver curioso, pode seguir aqui as novidades sobre o livro, no blog que a autora criou.

Espero que a minha próxima leitura seja bem melhor porque ultimamente, parece que ando a escolher mal as obras!... :(

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

"Handling the Undead", but not very well...

Ultimamente tenho lido menos romances: menos tempo livre, menos paciência, atenção dispersa entre romances e non-fiction, o facto de já não andar de transportes públicos, enfim... mais factores do que pretendo listar têm feito com que as minhas leituras se eternizem por longas semanas, quando há algum tempo atrás certos volumes claramente significariam apenas dias.

A mais recente obra a eternizar-se pelos meu escasso tempo livre foi Handling The Undead de John Ajvide Lindqvist.

"Um livro de zombies... depois dos vampiros, vêm os zombies." pensei.
As minhas expectativas eram grandes, considerando que tinha lido o Let The Right One In - e posteriormente visto o filme - e tinha ficado surpreendida por, num tema já tão explorado e onde é, de facto, difícil inovar, o autor demonstrava ser possivel e, já agora, fazê-lo bem.
Para além disso, não se tinha ele próprio armado em vampiro, escrevendo um livro de vampiros para aproveitar a moda, uma vez que a obra foi publicada na Suécia em 2004 e em inglês em 2007 (pelo que percebi).

Let The Right One In é mais um exemplo que contraria esta mais recente onda em Portugal de se desculparem os autores por lançarem maus primeiros livros; aliás, lá fora o que acontece é exactamente o oposto: estão a ser lançados excelentes primeiras obras de autores desconhecidos, capazes de rivalizar com o mais sonantes nomes da praça.
Acho que é uma questão de mentalidades e, especialmente, de exigência por parte do público: temos de deixar de desculpabilizar o que é nosso e defender a mediocridade, exaltando sempre a excelência e aí sim, sem invejas e maus fígados. Também neste ponto temos muito a aprender com "eles".

Sem querer fazer revelações de conteúdo, até porque o remake americano do filme promete estreia para 2010 (ainda vão a tempo de ler o livro antes do filme, o que é sempre mais agradável), a abordagem de Lindqvist à temática dos vampiros é de facto diferente, apresentando Eli, um vampiro criança - não pensem em Claudia de Anne Rice porque não há qualquer relação - com comportamentos infantis, mas que precisa de se alimentar de sangue, que a sua pequena estatura e idade física não permitem recolher sem problemas, um keeper ("guardador" soa mal e não transmite a totalidade da ideia) que tenta atender a todas as suas necessidade e Oskar, vizinho de Eli e também criança, sem amigos e mal tratado na escola, filho de pais separados, vivendo com uma mãe solteira cujo tempo não estica.
Cresce uma amizade entre as duas crianças, apesar das diferenças, que se vai reforçando com o tempo e as revelações mútuas, tendo sempre como pano de fundo a morbidez de Oskar e os estranhos crimes que ocorrem nos arredores da cidade.
Não vou revelar mais detalhes, mas o livro permite várias interpretações e a minha leitura do todo, reforçada com o visionamento do filme, é diferente das que tenho visto.

Depois de ter achado tão refrescante esta obra, não resisti ao Handling the Undead, quando me cruzei com ele, por acidente, na FNAC.
Comecei-o no dia seguinte e o início e todo o desenvolvimento da história são fantásticos.
Tal como na sua abordagem à temática de vampiros, Lindqvist tem a capacidade de inovar no que toca ao zombies.

É Agosto e Estocolmo tem passado os últimos dias - semanas? - destilando num calor sufocante. No ar sente-se uma carga eléctrica/energética que nem sequer permite desligar televisões, torradeiras e máquinas de café. Dores de cabeça terríveis assolam a população e, de repente, tudo volta ao "normal", desaparecendo a electricidade e, já agora, acordando todos os seres humanos que morreram nos últimos 2 (3?) meses.
Contrariamente aos zombies de Romero, estes são aparentemente pacíficos e comportam-se quase como sonâmbulos.
O romance é constituído por 3 plot lines: um jovem casal (David e Eva) com um filho pequeno, Elvy uma avó simpática e a sua neta Flora, ambas com poderes empáticos (e mais qualquer coisa), e um repórter reformado cuja filha perdeu recentemente o filho, o pequeno Elias.

Minutos antes do desaparecimento do campo eléctrico, Eva tem um acidente de carro e é transportada ao hospital onde acaba por falecer. Acompanhamos David, despedindo-se do cadáver da esposa, no momento preciso em que esta abre os olhos de novo e diz o seu nome.
Testemunhamos assim o instante zero do processo de "reliving" de centenas de cadáveres por toda a cidade de Estocolmo.
Os corpos que enchem as morgues da cidade são as primeiros a dar sinais de "vida" e a confusão espalha-se entre o pessoal hospitalar; rapidamente, os mortos já enterrados estão também a acordar e é necessário retirá-los das campas, pelo que o exército é chamado à tarefa de desenterrar corpos animados, mas em semi-decomposição.

O livro interliga as histórias com bastante mestria e intercala a narrativa com curtíssimos excertos jornalísticos, parágrafos de relatórios médicos, discursos políticos, etc. que permitem perceber as consequências do "reliving" para a população afectada e para o mundo em geral. Questões relacionadas com direitos humanos, experimentação, desconhecido, pânico, etc. são abordadas de forma clara e precisa, dando ao leitor um contexto geral mundial que nos permite sentir o acontecimento de forma muito mais real.

Aqui temos o primeiro enigma nunca clarificado da história: o reliving só ocorreu com cadáveres com o máximo de 2(3?) meses e limita-se geograficamente aos mortos da cidade de Estocolmo. Habilmente Lindqvist tenta não explicar nada, sendo essa a explicação: um mistério.

Os "reliving" têm de ser isolados, depois realojados, as famílias querem visitá-los, mas os cientistas não sabem se será seguro, enfim... aquilo que pode ser imaginado facilmente, caso um acontecimento destes ocorresse de facto. Até aqui tudo bem. A narrativa é fluida, credível e é por isso que funciona, mas depois...

A sensação que me dá é que o autor decidiu acabar o livro à pressa, não sabia o que é que poderia apresentar como causador do regresso dos mortos e decide apressadamente (SPOILER ALERT!) apresentar a intenção de que é preciso matar todos os mortos outra vez (nem se percebe muito bem como!) e fazer a Morte - entidade real que anda mesmo a capturar as almas dos vivos usando ganchos nos dedos em vez da tradicional, mas talvez démodé, gadanha cerrada - fazer uma aparição triunfante e levar as larvas/almas dos "reliving" para que eles morram de novo e, desta vez, fiquem mesmo mortos.
E pronto, fim.

Porque é que isto aconteceu?
A Morte decidiu tirar férias em Estocolmo?
Porque é que os que morreram e estiveram, literalmente, mortos e enterrados durante meses regressaram?
Houve uma fuga de almas tipo "Prison Break"?
Mas porque só estas, contidas temporal e geograficamente, e não outras?
E porque é que a Morte demora tanto a regressar para vir buscar estes mortos, mas as pessoas que morreram entretanto continuam mortos?
...

Enfim, ou eu não percebi nada do final do livro - o que pode ter acontecido, sei lá - ou ele é efectivamente mauzinho e faz muito pouco sentido, principalmente tendo em conta a abordagem do tema durante todo o livro.

Confesso que precisava de uma explicação e de uma resolução mais "cientifica". Acho até que isso iria estar mais dentro do tom da obra e era mais assustador por parecer mais real.

Esta "coisa" da Morte ser uma entidade a recolher as almas dos vivos já não assusta ninguém há uns séculos.

Apesar desta final desastroso, o livro vale a pena - se conseguirem ignorar as últimas 10 a 20 páginas - pela forma inovadora com que trabalha numa temática já gasta.



PS: Ao que parece os Suecos também já estão a fazer a adaptação para cinema...

Terça-feira, Outubro 27, 2009

O Mito dos Portes Grátis da BookDepository


Em primeiro lugar começo por esclarecer que não ganho nenhuma comissão da Amazon por estar a colocar aqui este post. Aliás, não ganho comissão de ninguém, mas nem só de comissões pode viver uma pessoa e confesso que me irrita quando as entidades tentar enganar os consumidores.

A Book Depository lançou uma, aparentemente, simpática campanha de portes gratuitos para todo o mundo!
Eu, assim como centenas - poderei dizer já milhares? - de portugueses compradores de livros pela 'net, saltei de felicidade quando vi isto! A poupança que isto significaria nas minhas compras...

Mas antes de me atirar de cabeça num binge de livrinhos novos via BookDepository, decidi investigar e fazer umas continhas (que é uma coisa que me agrada imenso).

Ora vejamos:

FACTO PRIMEIRO: Por cada livro que encomendo nos sellers da Amazon UK pago uma taxa fixa de £3.94 para portes de envio.

FACTO SEGUNDO: Na BookDepository não tenho outras opções de compra, uma vez que não existem outros sellers, essenciais para fazer baixar os preços. Nas listagens de sellers, livros novos, a Aphorhead Books e a UK Papeback Shop aparecem sempre com preços mais baratos que a Book Depository.

FACTO TERCEIRO: Os portes "grátis" da BookDepository estão incluídos no preço do livro, se este for comprado directamente no site da BD.

Apresenta-se de seguida, à laia de exemplo, uma tabela contendo os 10 mais vendidos na AMAZON UK (retirados dos sites durante as últimas 2/3 noites).

Podem comparar o preço entre a BookDepository na Amazon e na própria loja (sempre mais caro na loja própria, onde os portes são "gratuitos") e, melhor ainda, o preço do seller mais barato na versão livro novo (se fosse entrar com os livros usados, então a BD levava uma tareira desumana).
A vermelho a versão mais barata do livro, incluindo sempre portes de envio. Por vezes até era a própria Amazon UK quem tinha o preço mais barato. Em itálico encontram preços sem portes.



Podia ainda procurar no fabuloso Book Finder qual o preço mais baixo de cada um destes livros e pode ser que me surpreendesse, encontrando algum ainda mais barato.
Isto aconteceu-me recentemente, com livros mais difíceis de encontrar, produzindo poupança efectivamente significativas por livro - chegaram a atingir cerca de £15.

No caso desta compra, e indo agora ao que interessa, no final, depois de somadas as comprar destes 10 livros, o meu valor em poupança foi de £19,87.

Daqui, só posso concluir que, neste momento, os Sellers da Amazon são a minha loja de eleição. Ainda por cima porque compro imensa coisa usada, o que faz com que esta poupança seja ainda maior, para não falar nas possibilidade de arranjar livros assinados pelo autores, edições mais antigas, livros já esgotados...