Terça-feira, Outubro 26, 2010

Sobre Critica, Edição, Livros e Autores - de uma discussão do Facebook

Recentemente no meu Facebook, sob o pretexto de se comentar um post sobre a Jane Austen, surgiu uma discussão bastante rica sobre edição, livros, autores, blogues e criticas que merece ser partilhada com um público mais vasto.
Assim sendo e tendo obtido a autorização dos comentadores, fica a discussão.

Gisela Monteiro
Já tinha visto um dos artigos originais do BBC News sobre este assunto e tenho estando a pensar que, efectivamente, anda agora aí uma moda de sobrevalorizar o papel dos editores/revisores, em detrimento das capacidades dos escritores: Jane Austen Não Sabia Escrever?

Melusine de Mattos
Nem vou comentar, mas até vou! Até porque sabemos bem que podem haver falhas em muitas partes do sistema. O escrever, o acto de criar não se cinge ao mero cumprimento de regras gramaticais! Um poeta não tem que seguir estigmas linguísticos....... ...Não obstante, tantos são os livros que entram no mercado mal revistos e editados. Pergunto-me que falácia é esta de andar na ''caça'' de quem pior escreve. Para mim, escreve pior quem nada tem para dizer, não nutre opiniões próprias e desconhece a musicologia da sua própria língua... mas isso sou só eu! E eu não sou escritora, editora ou revisora.
Amo o livro e a escrita! Acima de qualquer função!
E depois de todas as revisões, penso que ''aprendi a escrever''. Perdoem os lapsos linguae!
Gisela Monteiro
Se existem editores/revisores geniais, como o artigo dá a entender, porque é que só um ou dois dos escritores por eles revistos/editados se transformam (transformaram) em grandes sucessos e, depois, em clássicos? Não seria de esperar que, em virtude das suas enormes capacidades para transformar obras medianas em obras excelentes, houvesse mais livros geniais por aí, saídos das suas mãos? No meu ponto de vista, estas premissas nascem de um enorme erro de percepção.
A responsabilidade pela qualidade de uma obra literária é do próprio autor: ou ele escreve bem ou não escreve. Ponto! O papel do editor/revisor é esse mesmo: REVER o texto e não REESCREVER.
Por favor, parem de dizer que os livros não estão bem, porque a revisão/edição foi deficiente ou que com uma boa revisão/edição certos livros até nem seriam maus.
Os escritores é que fazem (ou deveriam fazer...) das suas obras bons ou maus trabalhos.
Melusine de Mattos
Sim, obviamente! Era mesmo a esse ponto que eu queria chegar. E quem sabe se determinados erros não são mesmo intencionais? Eu mesma tenho que me reler vezes sem conta para me assegurar que a minha mensagem passa fluída e de forma correcta. Há muitos escritores que revêem os seus textos e têm uma tarefa duplamente árdua, pois não possuem muitas vezes o distanciamentos crítico para focalizarem as suas gralhas. Dizerem que o mérito é dos revisores é totalmente absurdo e injusto. Fazer trabalho de esquadria, qualquer um faz. Pensar de forma inovadora e que incite reflexões, só mesmo alguns!
Gisela Monteiro
Exacto! Da mesma forma que, se a prosa é má, se a mensagem não passa ou se a história não funciona a responsabilidade é do escritor e não de um editor/revisor que deveria fazer um passe de magia e tornar (como no artigo em anexo) uma obra mediana num trabalho de excelência.
David Luís Soares
Só numa sociedade relativista como a nossa, na qual, infelizmente, cada vez mais se diluem as fronteiras entre o autor e o público, se menoriza tanto o papel do criador.
A relação entre o editor/revisor e o autor que existe no mercado norte-americano (ou de língua inglesa, para ser ainda mais lato), por exemplo, na qual o primeiro sugere ou obriga a determinadas modificações no manuscrito do segundo, é contingente a um mercado que tem o mundo inteiro como destinatário e, ainda por cima, é altamente especializado (tem inúmeros nichos). Ora, para introduzirmos alguma honestidade intelectual neste discurso, convém dizer que também a literatura erudita, e não apenas a que se convenciona chamar a de género, é editada de acordo com padrões de gosto e de discurso crítico em vigência. Todos os textos são, mais ou menos, editados/revistos, embora a noção de autor que perdura ainda no mercado europeu seja muito diferente daquela que viceja no norte-americano. Para nós (cada vez menos) a literatura ainda é uma arte: para eles, é um produto. E, como qualquer produto, tem que ser produzido sem sobressaltos. Sei que estou a ser um pouco redutor nesta observação, porque há muitas excepções, até, mas este espaço a isso obriga.
Mesmo assim, as considerações que acabo de escrever nem sequer são aquilo que me traz à intervenção: a mim choca-me que se aceite, de um modo cada vez mais veemente, que um escritor (seja ele de melhor ou pior calibre) não seja capaz de ser o responsável pela qualidade da sua obra, sendo necessária o intermédio de um editor/revisor para que o texto submetido a publicação se eleve às altíssimas esferas da qualidade literária. Em suma: o escritor ou escreve bem ou escreve mal - e se escreve mal, então que não publique livros, em vez de propor manuscritos que obrigam a uma reescrita por terceiros.
Como não posso falar do que não conheço, falo de mim: aquilo que entrego ao meu editor é aquilo que é publicado. É lógico que o texto é lido com muita atenção, no sentido de se procurar e corrigir gralhas ou outro tipo de acidentes ortográficos, mas o meu editor não me obriga a cortar partes do texto nem a colocar outras - que é o tipo de edição/revisão "à americana" (na falta de melhor designação...) da qual fala o artigo que serve de combustível a estes comentários. Desculpem a minha falta de humildade (essa "qualidade" que agora anda tanto em voga), mas no dia em que precisar que me digam o que é que eu devo escrever, então é o dia de me reformar, pois já não estarei capaz de escrever de forma independente.
É preciso acabar com a noção generalizada de que toda a gente é um génio em potência, porque se somos todos geniais, então ninguém o é, de facto. É preciso mesmo ter coragem de dizer "tem paciência, mas não vales nada como escritor".
Melusine de Mattos
Tal como acontece com as restantes formas de expressão artística, o mercantilismo acabou mesmo por enfiar tudo no mesmo saco e por definir o que é 'comerciável' ou não. Quero, contudo, ainda acreditar (chamem-lhe ingenuidade ou pura demagogia) que subsistem pessoas que pensam, sabem escrever e fazem questão em que a sua assinatura não seja apenas um nome a constar na capa, juntamente com o título.
Com todos os sabores e dissabores que incorremos por sermos um país pequeno, quero ainda acreditar que não existem ditaduras editoriais desse género. Já nas revistas, jornais e meios de comunicação... concordo com o David: quem manda é o Euro!
David Luís Soares
Exacto! Mas isso relaciona-se com algo que é fácil de passar despercebido: quem manda no mercado é a maioria do público (leitores, espectadores, etc.). E neste ponto tenho de dar uma opinião que pode correr o risco de não ser popular: o público pode muito bem saber o que quer, mas não sabe, de certeza, o que é melhor. Até o que é melhor para ele mesmo.
O gosto é relativo, mas a qualidade não é - e quando se tem à disposição indicadores de várias ordens (tops, sondagens, audiências, etc.) que mostram, de modo cabal, que aquilo que mais vende, se vê, se lê, se experimenta, é o pior, então a conclusão só pode ser essa.
Para mim é simples: um artista (escritor, pintor, realizador) é um indivíduo que tem uma visão estética, filosófica, até, sobre o que é que a sua arte, em particular, deve ser e mostrar. Essa visão pode ser mais ou menos consonante com o gosto da maioria em vigor, mas não pode deixar de existir (senão, não é arte, ponto). O problema é que quando um objecto artístico se sintoniza com esse gosto maioritário e alcança um sucesso anormal (porque inesperado e muitíssimo dilatado em relação às expectativas), torna-se um modelo de pechisbeque para uma série de produtos que não têm visão nenhuma por trás: nem estética (a não ser a mimética), nem filosofia, nem nada. É aqui que entra a "tirania" (está entre aspas, mas não deixa de sê-lo, com as devidas distâncias) do lucro fácil: pois é muito mais fácil lucrar com uma fórmula que já deu frutos, que com um produto original que será, para todos os efeitos, uma incógnita. É por isso que, se calhar, se produzem mais 'remakes' que filmes originais. É por isso que as telenovelas, que contam sempre a mesma história 'ad nauseam', passam nos horários nobres. É por isso que as 'covers' entram melhor no ouvido que as músicas que reproduzem. E é por isso que se lê tantas coisas más.
Os artistas precisam do público (porque arte é "transmissão" - ao contrário de "comunicação" - e, sendo assim, o artista precisa de receptores, isso é evidente), mas o público também precisa dos artistas, porque sem eles não tem capacidades para saber o que é arte. Se a maioria do público soubesse o que é arte, então o mundo estava cheio de artistas.
Gisela Monteiro
Esse é, para mim, outro problema sério das "criticas" que aparecem por aí, nomeadamente em blogs e outros meios amadores: a confusão entre a qualidade e o gosto pessoal.
Já disse (e escrevi) várias vezes que podemos gostar de coisas de baixa qualidade e que podemos detestar coisas muito boas e bem feitas, mas não podemos nunca - até sob pena de perdermos a credibilidade - dizer que determinada obra é má simplesmente porque não gostámos ou vice-versa.
Muita vezes esta confusão advém também de uma terrível falta de maturidade e capacidade de compreensão de quem lê e comenta, mas já estou a fugir ao tópico em discussão.
David Kellen
este tipo de artigos não ocorrem apenas sobre literatura, ocorrem sobre música (afinal o produtor é que é bom!) ou mesmo ciência (ah aquilo é tudo ideias do orientador de tese!).
tudo reside na inveja e incapacidade de aceitar que há pessoas capazes de manifestar com sucesso o seu talento (sim, porque talento desperdiçado há aí os pontapés). por isso todos os pormenores que possam ampliados e distorcidos para denegrir a obra de uma pessoa são sempre bem-vindos.
que pobreza....
David Kellen
She said the papers show "blots, crossings out, messiness," and a writer who "broke most of the rules for writing good English."
repara na lógica: se a versão manuscrita tem partes riscadas ou reescritas então é porque não se é bom escritor.... quem é bom escreve bem logo à primeira, não há correcções!!
que palhaçada.
Andreia Torres
Os revisores/editores limam arestas, corrigem gralhas e erros. Não devem interferir no estilo nem no enredo - nesse caso tentavam a eles próprios a escrita. Quando passam gralhas depois de uma revisão ( ou até surgem mais do que no original - não é inédito ), isso sim é falha de revisão. Transformar um manuscrito sofrível numa obra-prima ( ou pelo menos, boa ), isso é impossível.
O problema do "eu gosto", "amei", "adorei" ou "gostos não se discutem" ( como já me disseram ) é que essas classificações acabam por não ter qualquer valor real, pois revelam a tal falta de maturidade e até uma incapacidade para entender a complexidade da literatura e da "literariedade" de próprio livro. Ficam-se pelo gosto pessoal ( geralmente só incide ao de leve no tema ou enredo - uma parte apenas do todo analisável ), algo sempre redutor e revelador da falta de uma capacidade verdadeiramente critica - talvez pela ausência de referências comparativas ou de muitas outras coisas como um bom background cultural.
Para os próprios escritores é bem mais útil uma análise mais "profunda" do que mil "eu gosto". A crítica lúcida, construtiva, realista, bem fundamentada e isenta ajuda o escritor a perceber os seus pontos fortes e a saber o que poderá melhorar.
Andreia Torres
Estive agora a ler uma "crítica" que dizia que o livro tinha "uma escrita acessível a todos" - sendo isso um ponto positivo. O que quer isso dizer? Mais um mistério! ;-)

Safaa Dib
Eu li quase todas as obras de Jane Austen e é impossível que seja uma autora meramente mediana salva por um editor/revisor, mas penso que há realmente uma onda a tentar impor o editor anglo-americano que faz sugestões e recomenda cortes e alterações. Existe muito o mito de que esse editor faz maravilhas num manuscrito, sendo considerado, logo, um excelente editor.
Eu compreendo que um editor faça sugestões/recomendações (nem sempre acatadas pelo autor, é preciso notar isso) para tornar um manuscrito mais polido, e esse é afinal o seu dever editorial. Mas onde acaba uma linha e começa outra? O que faz um leitor ter a certeza de que a editora é que anda a fazer mal o seu trabalho porque o autor demonstrou certas fragilidades? Estamos a falar do quê afinal? Pedir ao autor para reescrever ou mesmo pedir para escrever melhor aquilo que é o seu próprio estilo? Não é um assunto tão simples quanto parece, mas parece-me que o papel do editor/revisor está, de facto, a ser sobrevalorizado. Mas também é verdade que se no mercado de língua inglesa não há escrúpulos em fazer esse tipo de reescritas, cortes, exigências, aqui por estas bandas isso ainda está longe de ser parte da norma. E nem sei se deveria ser parte da norma. Porque a responsabilidade de um manuscrito ser bom ou não ainda pertence, primeiro do que tudo, ao escritor.
Gisela Monteiro
Eu diria que o problema é que, mais uma vez estamos a confundir as coisas, como referi na minha anterior intervenção.
Neste caso não se trata de gosto pessoal e qualidade; trata-se da confusão entre aspectos caracterizadores de uma obra e critérios para análise de qualidade.
Ter uma linguagem acessível é, diria eu, uma característica do livro, assim como será a sua dimensão, a língua em que foi escrito originalmente, etc.
O que permite avaliar um livro não são as suas características per se, mas a forma como essas características foram trabalhadas.
Neste caso, o que importa não é a caracterização da linguagem, mas sim a utilização que o autor faz dela!
Um livro pode estar escrito numa linguagem acessível e ter uma prosa maravilhosa, assim como um texto numa linguagem erudita (rebuscada tem já uma conotação negativa de partida) pode ser uma desgraça porque o autor não tem "mãozinhas para guiar um Ferrari", de igual forma, ser acessível pode ser sinónimo de simplista e isso não pode ser, nunca, um aspecto positivo.
Andreia Torres
Gisela: a pergunta retórica que coloquei tem exactamente essa resposta: acessível como simplista - daí o "acessível a todos.
Gisela Monteiro
Como já disse, escrever que um livro tem uma linguagem acessível serve apenas para o caracterizar e nunca deverá servir para o qualificar.
Assim, não tenho problema nenhum que se escrevam comentários a livros onde sejam referidas características; no entanto, numa critica séria (e ser sério nada tem a ver com amador ou profissional) não se deve resumir a isso para a constatação de qualidade ou falta dela. Acho que é óbvio para toda a gente que não posso dizer se um livro é bom ou mau pela capa ou pela espessura. É preciso analisar o conteúdo, a linguagem, a construção da história, a capacidade de inovação do autor, etc. Neste caso é o mesmo.
O problema está também no facto de se fazerem criticas sem pensar muito no que se está a escrever: colocam-se impressões, sentimentos, sensações e depois aparecem textos que dizem que os autores são malcriados porque escrevem asneiras nos romances ou então meninos leitores do "Twilight" que pedem uma tradução do "Wuthering Heights" para inglês moderno porque aquilo não se percebe nada.
De facto, na 'net, um blog mais sério tem o mesmo peso e a mesma aparência que um blog menos sério: a diferença faz-se pela qualidade dos textos que lá parecem, nomeadamente nas criticas.
Um local onde todos os livros são fantásticos, maravilhosos e inovadores ou tem um autor com muita sorte nas leituras que escolhe ou não tem muita capacidade critica.
Um local onde as criticas/comentários se limitam a enunciar características dos livros e a registar impressões pessoais é um local de opiniões, mas não é um local de critica.
Confesso que acho que o acto de criticar um livro é um acto difícil (talvez por isso me surpreenda um pouco com a quantidade exponencialmente crescente de blogs literários que têm aparecido ultimamente, especialmente desde que há livros a serem oferecidos pela editoras para apreciação pelos autores dos ditos blogs...) e que não é nada, nada fácil de fazer em parte porque é preciso ler muito e pensar muito sobre o que se lê para se conseguir fazer uma critica minimamente aceitável.
Claro que isto não são coisas simpáticas de se dizer, especialmente neste mundo cada vez mais relativista, onde tudo tem a mesma importância e se pode dizer que os clássicos são uma bosta ao mesmo tempo que se elogia a mais recente xaropada de um qualquer jogador da bola... Mas isto sou eu, que tenho mau feitio.
David Luís Soares
Sou um leitor exigente, porque quando estou a ler um livro de ficção nunca deixo de examinar a técnica e as escolhas de quem o escreveu. Já é defeito profissional, à falta de melhor designação. Por isso, tenho tolerância zero a livros mal escritos, porque os considero deprimentes. Mas abstenho-me de publicar críticas sobre o que vou encontrando de pior nas livrarias, porque, para começar, nem sequer leio esses livros: somente passo os olhos por algumas páginas e percebo logo se são bons ou se são maus. Bem sei que isto pode não ser muito simpático de se dizer, mas, para ir buscar um exemplo elementar, pensem nos jurados do "Ídolos", aos quais lhes basta ouvir os concorrentes abrirem as bocas para perceberem logo se eles sabem cantar ou não. E, como não os leio na íntegra, não posso criticá-los... Só posso dizer, à partida, que são mal escritos: agora, o quanto... Isso não sei, nem quero saber.
Concordo que criticar é difícil, sobretudo quando os padrões críticos mais subjectivos (todos os que não visam a tecnicidade da escrita) são tão volúveis. Na minha opinião, que vale o que vale, a forma mais honesta de criticar um livro é, em primeiro lugar, avaliar se está ou não bem escrito: aí não há volta a dar-lhe. Ou está bem ou está mal. Estabelecida essa base, pode passar-se para outro nível de apreciação, no qual se poderá avaliar a pertinência dessa proposta, se ela acrescenta algo de importante à própria literatura, o modo como comunica com o seu próprio tempo, que mensagem contém de relevante para o statu quo, et caetera, et caetera, et caetera.
Considero interessantes os fenómenos de crítica amadora que vão aparecendo na blogosfera, porque acho que, se forem estudados com rigor, vão revelar molduras de referência e tendências muito curiosas, no que diz respeito à formação de "clusters" de opinião, circulação de valores críticos em vigência e até o modo como determinadas obras literárias, com características heterogéneas, são apreciadas pelos mesmos leitores, já que a maioria das críticas amadoras são escritas por eles.
O que torna a crítica amadora algo... enfim... "amador" é o peso do gosto pessoal, em prejuízo de uma visão mais técnica e isenta sobre o objecto de análise e o facto de ser escrita na própria Internet que, como sabemos, não tem orientação editorial.
Basta ler algumas críticas publicadas em certos weblogs de divulgação literária para se perceber que estes não possuem orientação editorial definida e isso seria essencial. Quando se compra um jornal ou uma revista que possua uma secção de crítica literária, já se sabe, à partida (ou suspeita-se), que as opiniões nela contidas estarão mais ou menos em consonância com a orientação editorial da publicação. Isso ainda não se encontra nos weblogs, onde até o mesmo livro, criticado por indivíduos diferentes, pode ser, em simultâneo, laureado ou vilipendiado. E isto não é pluralidade: é esquizofrenia.
Andreia Torres
"O que torna a crítica amadora algo... enfim... "amador" é o peso do gosto pessoal, em prejuízo de uma visão mais técnica e isenta sobre o objecto de análise"
Concordo e também concordo com a visão de padrões objectivos e outros menos objectivos - que sendo-o nunca poderão ser mero "gosto". Terão de haver fundamentos para essa apreciação.
Uma questão que a Gisela referiu e me parece importante, apesar de serem poucos os que a abordam é a oferta de livros ao desbarato a críticos da nossa praça. Não é só o problema da falta de tempo para ler e analisar devidamente. Vamos ser realistas! Qual o valor de uma crítica que tem por base uma oferta? Quantos irão ter a coragem de dizer que o livro X não presta, se este foi uma prendinha e sabendo que uma crítica negativa irá fechar a "torneira" das ofertas? Não se pode exigir isenção sob tais condições. Eu sei que é o marketing a funcionar, mas...
Gisela Monteiro
Realmente, a quantidade de blogs de "literatura" que apareceram que nem cogumelos e que se limitam a apresentar a sinopse oficial (via copy-past do mail de apresentação que vem com o pacotinho de livros) e um comentário do tipo "gostei muito porque o autor é muito simpático e muito humilde, fala de ursinhos e tem um cão chamado Bolinha" são mais que muitos e são, de facto, pouco isentos.
Quem está por dentro, anda por aqui e sabe que isso acontece consegue claramente ver quais os blogs "aderentes": são os que só comentam as novidades e normalmente quase sempre das mesmas editoras e com o mesmo tipo de elogios superficiais, mas exuberantes. Os livros são sempre do melhor que há, são sempre inovadores e muito cativantes.
Estão a fazer-se muitas bibliotecas pessoais à custa destas borlas, mas quanto a isso não tenho nada contra. Se as editoras oferecem e eles estão dispostos a pagar o preço...
O que me parece perigoso, de um ponto de vista formal, é o facto deste tipo de comentários, para quem está de fora e não conhece o padrão, poder passar como opinião válida e independente e cimentar opiniões favoráveis de obras péssimas (podia fazer uma bela de uma lista, mas não me parece correcto estar apontar dedos neste contexto).
Mais perigoso que isso é poder levar pessoas a comprar livros que não têm qualidade e que estas pensarem que esses volumes, tão elogiados pela blogosfera representarem um género.
A literatura fantástica está, neste momento, cheia de lixo comercial a ser apresentado como fabuloso e que, aos olhos de um qualquer leitor mais exigente, não passam disso, de lixo.
Espero que a moda passe rapidamente para que as editoras deixem de publicar fanfiction mascarada de grandes obras e comece a seleccionar o que é publicado fazendo uso de critérios de qualidade, o que ultimamente, diga-se de passagem, não é bem o que tem acontecido.
Célia Marteniano
Corroboro por completo este teu último comentário, Gisela.
Como tenho um blog de livros e recebo (agora, poucos) livros para opinião sei como estas coisas funcionam. Há pouco falava ali no Twitter de uma situação em que uma editora com quem tenho (tinha?) parceria há coisa de 2 anos me contactou com uma proposta em que não só teria de ler o livro que eles queriam, como tinha de publicar um post a divulgar o livro, depois várias opiniões parciais à medida que ia lendo... Sou só eu que acho isto descabido? Parece-me que sim, pois vi em vários blogs fazerem aquilo que recusei. Desde essa proposta, há coisa de 2 meses, não voltei a ter notícias dessa editora e parece-me que vai continuar assim. O que, muito sinceramente, não me chateia.
A maioria das editoras não procede assim: existe abertura para, caso desejemos, nos sejam enviados exemplares de livros que queremos ler. Em troca de um livro, deverei emitir a minha opinião - seja ela positiva ou negativa; para mim, é tão simples como isso. Como já disse no meu blog, e em vários outros sítios, não tenho quaisquer problemas em opinar negativamente acerca de um livro que me foi oferecido por uma editora, porque acho que a honestidade, e logo a credibilidade, deve estar acima de tudo nesta questão. No entanto, tenho verificado que em outros blogs, livros que eu sei que são oferecidos são constantemente enaltecidos mesmo que não valham grande coisa. E se existe algum sinal de que o livro tem algum defeito isso normalmente passa quase despercebido. E também me parece que há que as pessoas se sentem "inchadas" de orgulho só porque existem editoras dispostas o oferecer-lhes livros para opinar. Se é certo que pode demonstrar algum reconhecimento pelo nosso trabalho, que não tenhamos ilusões: o principal objectivo das editoras é obter lucro, e entre um blog com excelentes opiniões e pouca "audiência" e outro com textos medianos e muitas visitas, escolherão certamente os segundos. No fim, tudo se resume ao objectivo que o dono de um blog destes teve ao iniciá-lo. Há blogs literários que foram criados com o objectivo óbvio de ganhar livros de borla, não haja dúvidas sobre isso - e é por isso que apareceram tantos ultimamente. Felizmente, ainda se vão conseguindo encontrar alguns que valem realmente a pena.
Safaa Dib
Mesmo a propósito, parece que o fandom norte-americano teve uma controvérsia recentemente sobre um blogger popular, o Pat do Pat's Fantasy Hotlist que quebrou o "embargo" de críticas do 13º volume do Wheel of Time imposto pela editora (o livro só é lançado oficialmente em Novembro). Ora houve muita gente (outros bloggers especialmente) que achou isso de muito mau gosto e criticaram esse post antecipado do Pat. E vai daí, o homem começa a ser crucificado na praça pública e parece que a editora, a Tor, também não achou muita piada. Ora isto levantou umas questões interessantes entre o fandom como "será que as editoras têm direito sequer a solicitar embargos a críticos online?" ou "não serão muitos dos bloggers já comprados pelas editoras devido à oferta de livros perdendo isenção?" Um dos posts mais interessantes partiu do Larry Nolen neste post: http://ofblog.blogspot.com/2010/10/thoughts-on-few-bloggerreviewer-centric.html
Só para citar uma parte muito relevante:
"Too often, I read comments where some, usually newish or more obscure bloggers but not always, state that receiving review copies is a "privilege." If that mindset is the dominant one, then no wonder why so many online review sites have problems with credibility beyond their inabilities to review at a greater depth than a fifth grade book report bolted onto a "feelings" summary that has a blurb stapled to it!
In an ideal world, reviewers would be equally likely to rip apart a book they receive from a publisher or author as they would a book they had purchased. It doesn't happen. There are some built-in biases and pressures."
David Kellen
e vocês até agora só falaram de conteúdos literários (ou tentativas de).
permitam-me desviar um pouco o tema para outros problemas no mundo editorial e da critica de livros
no campo académico, os professores recebem imensos livros técnicos para dar a sua opinião. e as melhores opiniões (ou seja, quem arranjar os elogios mais catchy) tem direito a aparecer citado na contra-capa, o que obviamente só beneficia o critico em termos de exposição mediática.
isto tem ainda um efeito perverso adicional, que é o facto de muitos destes livros, dadas as campanhas e as criticas positivas que lhes são feitas, tornarem-se livros de referencia nas Universidades, independentemente da sua qualidade. E muitos deste livros custam em média mais de 100 dólares.
para quem estiver interessado, deixo um link do blog do Andrew Gelman, um famoso estatístico, que fala de alguns dos podres do mundo editorial

http://www.stat.columbia.edu/~cook/movabletype/archives/2009/02/more_on_those_1.htm


Participaram neste discussão:
Andreia Torres - The Tale of the Bamboo Cutter
Célia Marteniano - Estante de Livros
David Kellen
David Soares - Cadernos de Daath
Gisela Monteiro - Liquid Dreams Of...
Melusine de Mattos
Safaa Dib - Stranger in a Strange Land